CATEDRAL SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Catedral Sagrado Coração de Jesus – Sinop – MT 

307

359

Os elementos litúrgicos devem ser condutores da atenção para o centro da celebração cristã, exercendo juntamente com todo o espaço sagrado a função de levar o Homem à conversão. A unidade e a harmonia que devem ser encontrados no espaço litúrgico refletem no fiel a grandeza que é ser batizado, o verdadeiro significado de ser cristão.

A arte sacra é um destes elementos que está a serviço da liturgia, ela indica a presença e a imagem do invisível que leva à contemplação. Não é meramente decorativa mas sim evangelizadora e comunicadora da profunda experiência de Deus. No contato com a beleza da Criação, entendemos o Criador e vemos como somos pequenos diante de tanta grandeza. E é através do mistério da encarnação, morte e ressurreição que a Igreja se expressa em uma linguagem simbólica, sendo portadora das palavras e sinais de Cristo,  o símbolo da fé cristã.

Por isso, a Igreja sempre valorizou a arte com o intuito de auxiliar e conduzir o Homem ao encontro com o mistério: “Entre as mais nobres atividades do espírito humano estão, de pleno direito, as belas artes e, muito especialmente, a arte religiosa e o seu mais alto cimo, que é a arte sacra. Elas tendem, por natureza,  exprimir de algum modo, nas obras saídas das mãos do homem, a infinita beleza de Deus, e estarão mais orientadas para o louvor e glória de Deus se não tiverem outro fim senão o de conduzir pia e o mais eficazmente possível, através de suas obras, o espírito do homem até Deus.” (Sacrosanctum Concilium – 122) 

710

Na Catedral Sagrado Coração de Jesus, comecei o planejamento para a execução das pinturas em 2006 a convite de Pe João Salarini, que considero meu padrinho na arte sacra por ter me conduzido a este caminho, e do Bispo Dom Gentil Delazari a quem também expresso meus sinceros agradecimentos por confiar e acreditar no meu trabalho.

A partir das primeiras reuniões, decidimos optar pela elaboração de um projeto tanto para o estudo litúrgico como para a captação dos recursos. Foi sempre considerada a importância da Catedral no contexto territorial em que se encontra, assim como  seu valor para toda a população que aqui se estabeleceu e que, em razão da recente colonização, desperta para a concretização de uma nova cultura.

Baseada nisso, comecei a criação das imagens sacras na Catedral em diálogo com uma simbologia regional, integradas na liturgia, com embasamento teológico e ressaltando a imensa natureza que nos cerca. É uma Catedral na floresta amazônica que busca em seu espaço a unificação de seu rebanho e uma valorização maior da vida por meio da preservação e da integração do homem como elemento de todo este ecossistema.

Todos estes painéis foram executados conforme o Projeto Cores da Catedral, aprovado pela Lei de Incentivo a Cultura (Rouanet). A captação dos recursos foi feita em empresas de Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde e também de pessoas físicas que se dispuseram a colaborar com o projeto. Pude contar com a ajuda e dedicação de Pe. Valdir Luiz Koch, atual pároco da Catedral, para que o valor aprovado fosse captado na íntegra e conseguíssemos com isto concluir todo o projeto proposto. Sua ajuda também foi fundamental nos estudos litúrgicos e teológicos para escolha das passagens bíblicas sobre as quais criei os desenhos.

409

 E, dentro desta visão de uma Catedral na floresta amazônica, o primeiro painel a ser concluído foi o do presbitério com o Bom Pastor na floresta amazônica; depois as portas com os anjos guardiões, o painel da Pia Batismal e os quatro painéis dos elementos da natureza.

Considero estes cinco anos de trabalho na Catedral um presente divino e agradeço todos os dias pela oportunidade de trabalhar na casa do Pai. Todo o esforço de planejar, estudar, dedicar horas a leituras, viajar para a pós-graduação em Arte Sacra e Espaço Litúrgico Celebrativo, assim como todo o período de execução foram fundamentais para  meu crescimento não só artístico mas também humano e espiritual.

A Arte sacra com seu sentido de ir além, de levar o criador e o observador a transcender, conduziu-me a um mundo muito mais significativo. É uma arte que tem sentido e que exige de quem se propõe a realizá-la muita concentração, oração, estudo e a humildade de reconhecer a imperfeição humana diante de uma beleza divina que não se é capaz de reproduzir fielmente.

Meu eterno agradecimento a Deus por esta oportunidade, a minha família, aos amigos e a todas as pessoas que de uma forma ou outra participaram e estiveram presentes nestes anos de trabalho das pinturas da Catedral. MARI BUENO

O BOM PASTOR DA FLORESTA AMAZÔNICA

 687

1496

219

170

172

No estudo litúrgico foi determinado que o tema para o painel do presbitério  seria a imagem do Bom Pastor. O painel tem as  medidas de 13m de extensão por 7 m de altura e foram três meses de planejamento e 8 meses de execução até a conclusão da pintura . A técnica utilizada foi pigmentos sobre textura. Tradicionalmente a imagem do Bom Pastor tem como cenário o deserto. Mas com a intenção de regionalizar a arte sacra, o que pode ser chamado de inculturação na arte, o Cristo está em um caminho da mata amazônica. Buscando assim uma proximidade maior dos fieis com o tema apresentado através do ambiente familiar que a pintura expressa.

O Bom Pastor está de braços abertos chamando as ovelhas (fieis presentes no espaço sagrado) para o caminho ao Seu lado direito, em meio as árvores de todos os tamanhos e formatos, com áreas de sombras e de luz, simbolizando tudo e todos que caminham pela vida, pessoas que se ajudam mutuamente e situações que ocorrem para o crescimento espiritual, e que sempre, na companhia Dele vêem no final deste caminho muita luz. Sendo que toda luz e sombra projetada na pintura fogem das regras acadêmicas, pois o centro é o Cristo de onde se projeta a claridade.

As árvores que O rodeiam são o símbolo da vida, da vitória sobre a morte, em perpétua evolução e em ascensão para o céu. Universalmente consideradas como símbolo das relações que se estabelecem entre o céu e a terra. E nelas se reúnem todos os elementos da natureza que estão presentes nos painéis nas laterais da Catedral: a ÁGUA que circula com sua seiva, a TERRA integra-se a seu corpo através das raízes, o AR lhe nutre as folhas e dela brota o FOGO quando seus galhos se esfregam um contra outro. Como lugar de isolamento das agitações do mundo, a floresta é, tal como o deserto, símbolo da concentração espiritual e interioridade.

Nas roupas do Bom Pastor a cor avermelhada da túnica simboliza a natureza humana de Jesus, preparado para o sacrifício, assim como também o amor, pois o amor é a causa principal deste sacrifício. É o “Filho do Deus” preparado para isto. A túnica marrom representa a terra. Nas iconografias esta cor aparece para recordar que “vieste do pó e ao pó retornaras”. Significa a humildade, pois esta palavra vem do latim “húmus” que significa terra. Os olhos grandes, academicamente desproporcionais ao rosto, levam implícitos um símbolo baseado no texto evangélico de São Lucas, 2,29-32: “meus olhos hão visto tua Salvação” . Na iconografia isto pretende revelar a Verdade, não somente interrogar ou vigiar, mas procurar penetrar na profundeza da alma humana, indicado pelo Evangelho: “Teu olho é uma lâmpada. Se teu olho é luz, tudo em ti será luz…” (Mt 6,22-23)

O BATISMO DE JESUS

449

731

877

955

933

003

310

O BATISMO: A vida pública de Jesus tem início com seu Batismo realizado por João Batista no rio Jordão. O Batismo de Jesus é da parte dele, a aceitação e a inauguração de sua missão de Servo sofredor. Ele deixa-se contar entre os pecadores, pois já é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (JO 1,29), Ele vem, “cumprir toda justiça” (Mt 3,15) ou seja, submete-se por inteiro à vontade de seu Pai: aceita por amor este batismo de morte para a remissão de nossos pecados.

PAINEL:  sua forma tem a união do quadrado que representa a terra e o círculo que representa o céu.

LINHAS VERTICAIS descem sobre Jesus fazendo a ligação entre o céu e a terra, uma composição de três linhas que representam a perfeição da unidade divina, a trindade, Deus uno em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

As quatro LINHAS HORIZONTAIS representam a terra, como os quatro pontos cardeais, quatro estações do ano e os quatro elementos da natureza.

A cor verde lembra as matas da floresta amazônica, a cor da natureza, da vida sobre a terra e da renovação espiritual. JESUS, no centro, está com vestes brancas, a cor que é a união de todas as cores, é a própria luz, símbolo de seu novo nascimento, da pureza e da perfeição. Com detalhes dourados que representam a luz Divina, a proximidade de Jesus com Deus.

Seu braço esquerdo sobrepõe o direito, é o braço das emoções enquanto o direito é da razão, portanto Jesus se entrega ao chamado de Deus e aceita sua missão. Sobre sua cabeça, o Espírito Santo em forma de POMBA, desce sobre Ele e sobre Ele permanece.

O PAI é representado pelos três arcos acima da pomba. Três círculos que simbolizam o divino, na cor azul que é a cor da imaterialidade e da pureza, de algo que vem de um mundo superior, de um mundo espiritual, é a cor própria de Deus.

O espaço do CÉU simboliza o reluzente símbolo dourado da luz divina através de seu tom amarelado. E no canto superior direito temos a frase HIC EST FILIUS MEUS DILECTUS, é a voz do céu que proclama: “Este é meu Filho amado que muito me agrada” (Mt 3,17).

JOÃO BATISTA ao lado direito de Jesus, é o precursor imediato do Senhor, enviado para preparar-lhe o caminho. Ele está humildemente curvado e sua veste de pele de animal é um atributo de quem viveu no deserto uma existência de privações.

Os TRÊS ANJOS na margem esquerda do rio também estão com o corpo inclinado como uma reverência ao senhor. Com os braços estendidos e suas mãos cobertas pela roupa em sinal de submissão, respeito e também disponibilidade em servi-lo quando sair da água. Os anjos simbolizam os três tipos de batismo: o anjo com a roupa azul representa o batismo da água, de vermelho o batismo de sangue e o de verde o batismo do desejo. E também uma homenagem aos três grupos étnicos:brancos, negros e indígenas.

ÁRVORE é o símbolo da vida, em perpétua evolução e em ascensão para o céu. Ela é a comunicação dos três níveis do cosmo: o subterrâneo através de suas raízes, a superfície da terra através de seu tronco e de seus galhos inferiores, e as alturas por meio de seus galhos superiores atraídos pela luz do céu. É a representação do próprio Cristo que se torna a árvore do mundo, o eixo do mundo, a escada.

AS ROCHAS são símbolos da força e da fidelidade de Deus protetor. E prefiguração do próprio Cristo: “e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava; e essa rocha era Cristo” (I Cor 10,4)

1380

PAINEIS DOS QUATRO ELEMENTOS DA NATUREZA

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Nas laterais da Catedral Sagrado Coração de Jesus em Sinop-MT, estão as pinturas nos quatro painéis que levam o nome dos elementos da natureza: água, ar, terra e fogo. Estes elementos estão relacionados com os Evangelistas e seus tetramorfos (homem, leão, touro e águia). E conforme o caráter de cada Evangelho o homem corresponde a Mateus, o leão a Marcos, o touro a Lucas e a águia a João. Segundo São Jerônimo, o homem representa a encarnação, o touro a paixão, o leão a ressurreição e a águia a ascensão.

Tendo uma relação direta com Cristo que pelo seu nascimento tornou-se humano, morreu como um touro no sacrifício,  ergueu-se do sepulcro como um leão e elevou-se ao céu como uma águia. Onde Mateus é o homem alado por que começa seu evangelho com o nascimento humano de Cristo, representando a encarnação. Lucas é o touro alado por que começa com o sacerdote Zacarias e com a oferta de seu sacrifício, representando a paixão. João é representado por uma águia por que nele o Espírito Santo fala da forma mais vigorosa, e paira nas regiões mais sublimes e elevadas da consciência, assim como a águia vai rumo ao sol, representando a ascensão. Marcos é o Leão alado por que começa com a pregação de João no deserto, representando a ressurreição.

Os Evangelistas, autores dos quatro Evangelhos Canônicos, são representados por estes símbolos desde as mais antigas obras figurativas cristãs. Estes animais celestiais são aqueles que o profeta hebreu Ezequiel, por volta do fim século VII AC, e o evangelista São João nos primeiros anos da Igreja, presenciaram em suas visões e formam o que a arte sagrada denominou de Tetramorfos, as “Quatro Formas”.

Assim, os quatro Evangelistas se tornaram símbolos do firmamento do céu e do edifício do mundo. Com o estudo litúrgico para a criação das imagens sacras dentro da Catedral Sagrado Coração de Jesus, os quatro painéis ficaram definidos como: no primeiro painel o elemento água (Evangelista Mateus, tetramorfo anjo, nascimento de Jesus). No segundo painel o elemento terra (Evangelista Lucas, tetramorfo touro, morte de Cristo). No terceiro painel o elemento fogo (Evangelista Marcos, tetramorfo leão, ressurreição de Cristo). E no quarto painel o elemento ar (Evangelista João, tetramorfo águia, ascensão de Cristo).

Em todos os painéis estarão representadas três passagens bíblicas referentes a esta simbologia. Sendo uma passagem principal (citadas anteriormente) e duas secundárias. Este trabalho de arte sacra utilizando a simbologia dos quatro elementos integrados na liturgia e com embasamento teológico vem ressaltar a importância da Catedral na floresta amazônica que busca através de seu espaço a unificação de seu rebanho e valorização maior da vida através da preservação e integração do homem como elemento de todo este eco-sistema. E também, a função da arte sacra como um dos elementos litúrgicos presente no espaço cristão que deve auxiliar o homem em seu encontro com o Sagrado.

 PAINEL DO ELEMENTO ÁGUA

EVANGELISTA MATEUS

990

1501

1300

1041

Neste painel, na parte superior, está representada a imagem de um anjo, que é o símbolo do evangelista Mateus. Denominado de tetramorfo, ou “quatro formas”. Símbolos presenciados pelo profeta Ezequiel e o evangelista São João em suas visões e que representam desde as mais antigas obras figurativas cristãs os Evangelistas (Mateus-anjo, Lucas-touro, Marcos-leão e João-águia).

Mateus está representado no painel água por que seu símbolo representa a encarnação (anjo-homem) e começa seu evangelho com o nascimento humano de Cristo. Onde já nas tradições judaicas e cristãs, em primeiro lugar a água simbolizava a origem da criação. O mem (M) hebraico é a água sensível: a mãe e matriz (útero). Ela, a matéria original, sem a qual não existiria vida.

No Antigo Testamento já se encontra esta relação entre a água e a criação: “…e um vento de Deus (Espírito de Deus) pairava sobre as águas.” (Gn 1,2).”Somente depois que as águas do firmamento se reuniram num só lugar, é que surgiu a terra seca.” (Gn1,9). A água original torna-se a água da vida: “…um rio saía do Éden para regar o jardim e daí se dividia formando quatro braços,” os quatro rios do paraíso (Gn 2,10-14).

No Novo Testamento existe a correspondência entre a matéria original úmida, a água da vida e o Espírito Divino:”Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” ( Jô 3,21). “Se alguém tem sede, venha a mim e beba, ‘aquele que crê em mim’ conforme a palavra da Escritura: de seus seio jorrarão rios de água viva” (Jô 7,37). Por isto, na imagem central do painel está retratado o nascimento de Jesus. A encarnação do Salvador. Cumprido o que o Anjo do Senhor disse em sonho a José: “…Ela dará à luz um filho, e você lhe dará o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados.” (Mt 1,21)

Maria, está acolhedora ao lado do recém chegado filho. É a mãe virginal de Deus que simboliza a alma em que Deus concebe a si mesmo gerando-se nela, a alma que leva a união na qual Deus se torna fecundo com o acordo e aceitação através de seu “sim”. Sua túnica azul representa a cor do Divino, da perseverança na verdade e da fidelidade. A cor violeta do manto é a cor do agir pensado, do equilíbrio entre o céu e a terra, sentidos e espírito, amor e sabedoria. Que na antiguidade era considerada a cor mais bela e mais excelente. José se mantém firme e de forma protetora ao lado de Maria e do Menino Jesus. Com suas vestes em tons de marrom vem lembrar a humildade de um homem que demonstrou tamanha a sua fé pela aceitação de sua missão.

O verde, cor do manto que envolve o menino Jesus, é a cor da esperança, da vida e da imortalidade. Sinal da renovação realizada pela encarnação de Deus que em um ato sagrado se tornou humano para dar sua vida em sinal do amor pela humanidade. “E a palavra se fez homem e habitou entre nós.” (Jo 1,14) As imagens laterais baseadas nas passagens bíblicas são as das Bodas de Caná e da Samaritana. Sendo seu ponto cardeal correspondente o oeste. A cor utilizada para pintar estas duas passagens é o verde. Cor da vida, da água, do frescor, Na passagem da samaritana Jesus dá-se a conhecer como o Senhor da água da vida.

Em diálogo com a mulher de Samaria, Jesus frisa a distinção essencial entre a água comum, como, por exemplo, a do poço de Jacó, e a água que ele dá aos que têm sede: “Quem beber da água que eu der, nunca mais terá sede” (Jô 4,7-14). Na imagem das bodas de Caná a água torna-se o vinho novo do banquete nupcial, símbolo da união e da aliança definitiva entre Deus e seu povo.(Jo 1,1-11) E na parte inferior do painel as linhas ornamentais em forma de ondas representam a água, também pintadas de verde, cor deste elemento da natureza.

PAINEL DO ELEMENTO AR

EVANGELISTA JOÃO

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

1350

1044 

Neste painel, na parte superior, está o tetramorfo do Evangelista João: a águia. (Símbolos presenciados pelo profeta Ezequiel e o evangelista São João em suas visões e que representam desde as mais antigas obras figurativas cristãs os Evangelistas: Mateus-anjo, Lucas-touro, Marcos-leão e João-águia). João era o discípulo que Jesus amava e que é visto muitas vezes como jovem, então, também a águia pode tornar-se símbolo do neófito ou catecúmeno, pelas narrações que diziam que era o único anima capaz de encarar o sol e depois mergulhar numa fonte de juventude pra renovar suas forças, se tornando um símbolo da ascensão.

Seu poder simbólico ligado sobretudo com a sua força, a sua resistência e seu vôo em direção ao céu. Na antiguidade já era símbolo do real e do divino. Na bíblia aparece como símbolo da onipotência de Deus ou também da força da fé. Na imagem central do painel está retratada a ascensão de Cristo (At 1, 6-11).

O momento em que Cristo anuncia aos apóstolos que o Espírito Santo descerá sobre eles e lhes dará força para serem Suas testemunhas. E a vista deles é levado ao céu, onde uma nuvem o cobriu e eles não puderam mais vê-Lo. Enquanto continuavam a olhar para o céu dois homens vestidos de branco perguntaram o que faziam ali, parados, olhando para o céu. Afirmando que Ele retornaria da mesma forma que o viram partir. Pois era Jesus, o “corpo glorioso”, verdadeiro corpo vivo, que permaneceu durante quarenta dias depois da sua ressurreição entre seus discípulos, e agora sobe ao céu pedindo que permaneçam em prece à espera do Espírito Santo.

Nas imagens laterais estão representadas as passagens bíblicas da Criação e do Envio. Sendo seu ponto cardeal o leste e a cor que simboliza o ar é o azul. É a cor do vazio vaporoso e do firmamento. A menos material das cores. Considerada transparente e pura, é a cor da fidelidade. Cor onde o olhar mergulha sem encontrar obstáculos, perdendo-se até o infinito. Na passagem da criação, Deus que depois de haver feito o homem do pó da terra, dá-lhe vida com um sopro criador em suas narinas. Este sopro é a vida do Espírito que Deus dá ao ser humano. (Gn 2,7) E Ele transforma o estado vazio da terra, colocando plantas sobre a terra firme, planetas e estrelas no céu, e animais na terra, nas águas e no céu.

Na imagem do lado direito (Lc 9,1-6) Jesus chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois com um único objetivo: anunciar a vinda próxima do Reino do Céu. Sendo testemunhas de uma verdade perante o mundo que não a conhecia. O envio de dois em dois era  próprio do tempo, onde eram enviados para atestar uma mensagem. E também mútuo apoio em situações difíceis. Jesus, no início de sua escolha, também chama de dois em dois os irmãos pescadores. Na parte inferior do painel as linhas ornamentais em forma de ondas representam o ar, também pintadas de azul, cor deste elemento da natureza.

PAINEL DO ELEMENTO TERRA

EVANGELISTA LUCAS

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

1326

1047

Este painel é do elemento terra,  no qual o Evangelista Lucas está representado na parte superior por um touro, seu símbolo,  denominado de tetramorfo. O touro  é o animal que representa a matéria corporal, o trabalho, o sacrifício. Por isso está relacionado com o elemento terra e com o Evangelista Lucas que começa seu  evangelho com o sacerdote Zacarias e com a oferta de seu sacrifício. Representando assim,  a  paixão . Na pintura central está a imagem da crucificação de Jesus, onde aos pés da cruz estão Maria sua mãe, Maria Madalena, Maria de Cléofas, irmã de sua mãe,  juntamente com o discípulo que Jesus mais amava( Jo 19,26-27).

Nesta imagem o tecido que cobre Jesus durante a sua paixão e na consumação de sua encarnação é de cor violeta. Esta cor é formada pelas partes iguais de vermelho e azul, é a cor da medida, do agir pensado, do equilíbrio entre o céu e a terra, representando o momento da consumação de sua obra onde ele une em si totalmente o homem verdadeiro e o Deus verdadeiro. Ele está de olhos abertos mostrando que a consciência e o amor permanecem vivos em face da morte e diante do inelutável. Suas mãos estão abertas em sinal da sua entrega com serenidade e oferenda: “ Minha vida não me é tirada, sou eu quem a dou.”

Ao contrário das mãos dos dois ladrões ao seu lado que mostram o realismo da dor e do total desamparo. Lembrando que o que salva não são as dores nem as chagas de Cristo mas sim, a realidade do amor que transfigura o sofrimento e faz da morte não um fim, mas uma passagem: uma Páscoa. Mostrando também  o momento em que a cortina do santuário rasga-se pelo meio e Jesus grita: ”Pai em tuas mãos entrego o meu espírito”.(Lc 23,44) Aos pés da cruz está uma caveira representando o local onde Cristo foi crucificado, “Gólgota” (o lugar da caveira) também chamando de Calvário .(Lc 23,33)

Nas  imagens laterais do lado esquerdo está  a saída do Egito representando a primeira Páscoa (Ex 12,43-50 e Ex 13,1-16).E do lado direito a apresentação de Jesus no Templo  (Lc 2,21). Jesus que é imolado na cruz como o Cordeiro que tira o pecado do mundo. E como sinal da libertação do povo do Egito, Deus através de Moisés, pediu que todo primogênito fosse consagrado ao senhor Estas passagens secundárias estão pintadas na cor ocre para representar o elemento terra. É a cor do chão, do outono, da humildade (húmus-terra). E  as linhas ornamentais inferiores formam quadrados, símbolos do elemento terra (quatro lados, quatro pontos cardeais, quatro estações do ano).

PAINEL DO ELEMENTO FOGO

EVANGELISTA MARCOS

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

FOGO (2)

1337

1046

Neste painel, na parte superior, está o tetramorfo do Evangelista Marcos: o leão. (Símbolos presenciados pelo profeta Ezequiel e o evangelista São João em suas visões e que representam desde as mais antigas obras figurativas cristãs os Evangelistas: Mateus-anjo, Lucas-touro, Marcos-leão e João-águia). Animal símbolo de coragem, ferocidade e suposta sabedoria. O próprio Cristo é chamado de Leão de Judá, e o leão passa a ser um símbolo da ressurreição de Cristo com base na idéia que os leões nascem mortos e são despertados para a vida através do hálito de seu pai.

O fogo já no AT aparece principalmente como Teofania e no NT como símbolo Daquele que desde a sua sepultura selada com pedra, foi de encontro à glorificação, o fogo da noite Pascal é tirado com golpes na pedra de fogo. Na imagem central do painel está retratada a ressurreição de Cristo (Mc, 16). O túmulo vazio visto pelas três miróforas (mulheres que foram ao túmulo levar perfume) e encontram apenas um pano que repousa  sobre o túmulo, o qual envolvia Cristo. Estas mulheres que foram levar mirra para embalsamar o corpo de Cristo ouvem a voz do anjo sentado do lado direito que as convida a não buscar , entre os mortos, Aquele que está vivo. E da mesma maneira que a Natividade evocava o túmulo, aqui, o túmulo evoca a Natividade. A morte é um novo nascimento.

Nas imagens laterais estão representadas as passagens bíblicas de Pentecostes e da Sarça Ardente. Sendo seu ponto cardeal correspondente o sul. A cor utilizada para representar estas duas passagens é o vermelho. Cor do sangue sacrifical de Cristo e das testemunhas de sangue, ou também da penitência. Na passagem de Pentecostes os doze apóstolos estão reunidos no cenáculo (At 2, 1-13) . Línguas como de fogo, se repartem e repousam sobre eles que ficam repletos do Espírito Santo. Nessa assembléia os “filhos de Deus” são iguais em dignidade e graça, mas sem uniformidade, com variedade de atitudes e de semblantes. O mesmo fogo desce sobre todos, mas a chama que desce sobre cada um é única; eles não falam todos a mesma língua, mas cada um escuta, respeita e compreende a língua do outro.

Na imagem da Sarça Ardente Moisés se aproxima para ver a sarça que não se consome, e no meio dela Deus pede a Moisés que não se aproxime e tire as sandálias por que o lugar onde ele pisa é sagrado. Então Moisés cobre o rosto com vergonha de olhar para Deus (Ex, 3). Deus se revela a Moisés no meio da sarça e a partir daí orienta Moisés de como tirar o povo de Israel da escravidão do Faraó no Egito. A visão do arbusto ardente que não se consome é a promessa de que a Presença Divina estará sempre com seu povo. Na parte inferior do painel as linhas ornamentais em forma de triângulos representam o fogo, também pintadas de vermelho, cor deste elemento da natureza.

ANJOS GUARDIÕES

619

1392

1531

A palavra anjo (do latim angelus e do grego ággelos) significa “o que traz notícias”. Os anjos  são os mensageiros divinos, o contato entre o céu e a terra, que executam a vontade de Deus como portadores das mensagens divinas para a humanidade.

Nas portas da Catedral Sagrado Coração de Jesus, os anjos guardiões têm em suas mãos o turíbulo onde o incenso queimado produz a fumaça que é símbolo das preces que sobem ao céu. O incenso, palavra que deriva do hebraico “lebonah” significa “branco, brilhante” e era usado na Antiga Aliança como parte integrante da incensação sagrada que competia unicamente a Deus como símbolo de adoração (cf. Ex 30,34).

O incenso e a prece são de igual valor e intercambiáveis, constituindo ambos sacrifícios diante de Deus: “Suba a minha prece como incenso à sua presença, minhas mãos erguidas como oferta  vespertina!” (Sl 141,2).  Como o perfume exalado pelo incenso, os cristãos também devem exalar a Palavra Sagrada da qual se alimentam. O perfume que sai do turíbulo e os purifica ao entrar e sair do espaço sagrado  deve ser levado  com eles por onde andarem: “Espalhem bom perfume como incenso e floresçam como lírio. Espalhem perfume e entoem um canto, bendizendo ao Senhor por todas as suas obras” (Eclo 39,14).

As cores azul e verde na roupa dos anjos representam a espiritualidade e a humanidade de todos os homens que buscam a santidade pelos ensinamentos de Cristo. A cor azul da roupa do anjo guardião simboliza a fidelidade espiritual do homem, por ser a cor mais profunda e imaterial; com sua transparência do vazio vaporoso da água e do ar, tem o sentido da perseverança na verdade. A roupa verde do outro anjo vem ressaltar o lado humano da vida e da espera pela ressurreição ― sinal da renovação realizada por Cristo e expressão da esperança da volta da humanidade ao paraíso.

 

MARI BUENO